Carregando...
Carregando...
Foto 1 - Pré-venda - Feminismo, Família e Reprodução social - Gênero em Marx, Engels e na Associação Internacional dos Trabalhadores

Pré-venda - Feminismo, Família e Reprodução social - Gênero em Marx, Engels e na Associação Internacional dos Trabalhadores

R$ 60,00
Código: 86
Tamanho:
Autor:
N. Páginas:
Ano:
Edição:

Descrição do produto

Entregas a partir de 2 de fevereiro!

Prefácio: Publique-se!

por Virgínia Fontes


Tive a enorme satisfação de participar da banca da tese que originou este livro. Minha arguição, palavra pomposa para o debate que a banca realiza com a autora,
constava de vários comentários, sugestões e críticas, mas foi aberta e concluída com as seguintes palavras: publique-se! Estou muito feliz de estar com os originais da publi-
cação nas mãos, e rapidamente o livro estará pronto a ser lido e a ser "devorado" pelo maior número possível de pessoas. Aproveitem. Vale a pena.


O livro tem vários momentos, todos extremamente instigantes. No primeiro, em uma espécie de introdução ao grande desafio, Danielle Jardim da Silva realiza uma
apresentação comentada e propõe uma contribuição para a Teoria da Reprodução Social (TRS). Trata-se de enorme esforço no sentido de avançar em uma "crítica da
economia política e do patriarcado", o que incorpora a análise das determinações da generificação da existência nas sociedades capitalistas, assim como a da racialização.
Trata-se de integrar organicamente a compreensão da multiplicidade de formas da exploração do trabalho, a opressão e a alienação na sua dimensão de gênero (e da
racialização). Desafio que é intelectual e militante, de modo a permitir a confluência de lutas fundamentais. Com origens históricas diversas, todas são lutas pela igualdade
substantiva, a única que permite a admissão das diferenças não hierárquicas. São lutas que, por essa razão, atacam o capital no seu cerne, o da valorização desenfreada do valor, feita através da recorrência e do aprofundamento das desigualdades, das hierarquias e da subalternização.

Vale a pena não só ler cuidadosamente essa reflexão sobre a TRS como se enfronhar nela para um debate que precisa ainda avançar muito, na teoria e na prática.

Danielle tem o gás e o vigor da juventude, tem experiência de luta e muito engajamento prático e teórico, o que aporta elementos preciosos e energia para todos os grupos de pesquisadores e de militantes. A dificuldade maior - e Danielle tem consciência disso - é articular e integrar plenamente a crítica da produção e reprodução da vida social sob o tacão do capitalismo, em todos os seus aspectos, sobretudo naqueles deixados convenientemente à sombra pelos epígonos do capital. Nas lutas de gênero, antirracistas e na pauta ambiental grandes passos foram dados, mas a consolidação de uma teoria com tal amplitude exige ainda reflexão e refinamento. Danielle Jardim apresenta diversos momentos dessa elaboração, os debates internos, limites e divergências, pavimentando rotas de compreensão e de luta social mais sólidas. Vejamos as dimensões da empreitada nas suas próprias palavras:

Arriscamos elaborar alguma forma de interpretar o lugar do trabalho reprodutivo não pago na economia capitalista que não reproduzisse equívocos anteriores. O trabalho doméstico não produz valor, homens e mulheres da classe trabalhadora são da mesma classe, não havendo exploração dos homens sobre
as mulheres, mas, ao mesmo tempo, o trabalho doméstico não pago produz valores de uso importantes, ajudando a determinar o valor da força de trabalho
e a apropriação de mais-valor, além de cumprir funções fundamentais para amanutenção e reprodução da mercadoria mais importante do capitalismo, a
força de trabalho, sem a qual não é possível colocar o capital em funcionamento. O reconhecimento da contribuição indireta do trabalho doméstico não pago,
no espaço da reprodução, e de seu impacto, no espaço da produção, sobre a maximização do mais-valor/lucro e suas taxas, recoloca o trabalho reprodutivo
não pago em um lugar importante para o modo de produção capitalista, ainda que essa importância esteja propositalmente velada. Uma correta compreensãoda relação entre produção e reprodução nos habilita a perceber não só perpetuação do trabalho reprodutivo não pago na economia capitalista, mas também a entender outras determinações que se somam sobre os trabalhos reprodutivos assalariados de diversos tipos, inclusive os produtivos. Além disso, nos permite recolocar a opressão de gênero não apenas como um elemento conjuntural ou desconectado do capitalismo, mas como uma relação estruturante desse modo
de produção.

É sempre importante lembrar o que foi mencionado por Bianca Bonente e Sara Granemann na ocasião da banca de doutorado: a produção e reprodução do
conjunto da vida social integram plenamente a crítica da economia política elaborada por Marx e por Engels. Toda a produção precisa repor seus elementos constitutivos e,
portanto, a reposição (reprodução) da força de trabalho é também essencial e integra centralmente a crítica da economia política. Decerto, a enorme devastação realizada pelo capital repousa na contínua reprodução ampliada de suas relações sociais fundamentais: por um lado na permanente produção de populações expropriadas da terra e, na sequência histórica, por expropriações parlamentares de direitos, o que intensifica a concorrência entre massas crescentes de trabalhadores e deriva numa dilapidação da vida humana sem precedentes. Assim, levando em consideração o conjunto da classe trabalhadora com sua diversidade crescente, a reprodução da existência social é rebaixada a níveis espantosos, de maneira cada dia mais desigual, intensificando formas brutais de opressão - contra mulheres, pessoas racializadas, crianças, idosos, etc.

? mas também aprofundando formas sutis de subalternização, de extrema violência simbólica. O outro lado dessa relação social é a centralização e concentração da propriedade do capital, isto é, da capacidade de controlar os meios de produção da existência e da relação sociometabólica necessária à vida social. A potência expansiva
do capital impõe a impossibilidade de limitar a dinâmica da valorização do valor por qualquer preocupação real com a reposição dos elementos sociais e naturais utilizados
para a produção capitalista. Como argumenta Istvan Mészàros, o capital engendra uma dinâmica incontrolável, colocando em perigo a tudo e a todos. O colapso am-
biental que estamos enfrentando é sua expressão maior, assim como as atividades de greenwashing (lavagem verde de dinheiro), ou da intensificação de fugas para a frente,
quer sejam negacionistas do capitaloceno, ou meramente oportunistas. Uma e outra objetivam extrair o máximo possível de valor/lucratividade, reservando para pequenos
grupos das classes dominantes as condições de sobrevivência e condenando todos os demais, isto, o conjunto da humanidade, ao colapso. Ironicamente, nem mesmo tal
enorme brutalidade pode assegurar as condições de sobrevivência de tais magnatas enterrados em bunkers... A emergência de fascismos no quadrante ocidental - tanto nos EUA quanto em diversos países da Europa - expressa o quanto a produção/reprodução do capital, muito mais do que uma economia, é um modo de existir devastador.

Nesse contexto, as questões trazidas neste livro são ainda mais cruciais. Compreender a relação entre a produção/reprodução ampliada do capital e a reprodução da força de trabalho, que constrange metade da humanidade ? as mulheres ? a uma múltipla exploração/subordinação é fundamental para a consolidação das lutas anti-
capitalistas.

Após uma abertura desafiadora e grávida de debates a que nos convoca Danielle, a segunda parte nos leva a uma viagem ainda pouco conhecida entre nós efascinante. A autora elabora uma análise histórica que descortina um processo de tensões, de aprendizados e de inquietações no qual as intervenções das mulheres traba-
lhadoras no século XIX conduzem a inflexões e avanços significativos na prática dos formidáveis enfrentamentos ocorridos na Associação Internacional dos Trabalhadores
(AIT), também conhecida como Primeira Internacional. Nossa autora mostra como a luta operária estava permeada de preconceitos contra as mulheres e até mesmo de misoginia, e os apresenta de forma contundente. As lutas políticas, as de cunho organizativo, as definições programáticas empurravam, entretanto, militantes ? homense mulheres ? a tensionar limites, sociais e intelectuais, dados como "naturais" na Europa do século XIX e a avançar. Eram passos muitas vezes hesitantes, avançando em alguns pontos, conservando limites em outros, inaugurando novas veredas cognitivas ou deixando de lado parcela das novas descobertas. Confesso que esta parte do li-
vro me encanta, pois acompanhamos por dentro de maneira extremamente viva um processo de aprendizado múltiplo, em que se cruzam as reivindicações de mulheres
ousadas e combativas, as dúvidas e questões sobre o papel das mulheres e a escala de sua participação, tentativas de protegê-las que muitas vezes apenas as subalternizam.

Ao mesmo tempo, fica evidente o protagonismo da ação das mulheres e a forte autonomia que elas demostravam. Nesses embates, Marx aprende e exercita a ampliação da crítica política ao capital, incorporando crescentemente elementos radicais da luta
das mulheres.

Aqui nos encontramos com mulheres em luta na AIT, muitas das quais participaram diretamente da AIT e/ou da Comuna de Paris, personagens riquíssimas de ousadia, de humanidade e ativas no processo social, político e histórico, muitas ainda mal conhecidas no Brasil. Com uma escrita firme e bem conduzida, o livro está las-
treado em farta bibliografia e em documentação de tirar o fôlego - mais de três mil páginas que recheiam cinco volumes de atas e documentos do Conselho Geral da
AIT e um volume do Congresso de Hague, de 1872.

A AIT, esmagadoramente composta por homens e voltada inicialmente sobretudo para um ambiente masculino e com laivos misóginos, avançou não apenas na luta operária. Como mostra a autora,

contribuiu com a abertura das portas do movimento operário para a "questão da mulher" e à participação feminina, travando interna e externamente uma batalha sobre a redefinição do papel das mulheres, sobretudo trabalhadoras, na sociedade capitalista que surgia. A AIT legitimou as mulheres como parte da classe trabalhadora e ajudou a reforçar o lugar das mulheres nas lutas operárias.

Esse miolo histórico é crucial para a sequência da pesquisa, que se dirige resolutamente para os desafios assumidos por Marx e Engels sobre a compreensão histórica do papel da família, da propriedade e do lugar social das mulheres. Através da pena de Danielle, nota-se a contribuição das reflexões de E. P. Thompson sobre a experiência proletária, e podemos imaginar os longos debates e conversas entre Danielle e Marcelo Badaró Mattos, orientador e amigo. Nutridos por esse rico e intenso percurso histórico e pelas lutas feministas, Danielle nos conduz ainda a novas viagens.

Na terceira parte do livro, a autora compartilha conosco suas leituras dos textos de Marx e Engels sobre opressão de gênero e família nos anos posteriores à AIT. Com
uma abordagem atenta, apoiada por cuidadosa leitura dos textos do século XIX e em farta bibliografia internacional, Danielle esmiúça a portentosa contribuição desses au-
tores, o que permite incorporar uma enorme palheta de nuanças. Mais uma vez, Marx e Engels, clássicos e precursores, são analisados à luz das contribuições intelectuais
disponíveis no século XIX, e não como se compartilhassem das vivências dos séculos XX e XXI. A autora destaca os esforços e tentativas que fizeram para apreender um
fenômeno que entendiam ser fundamental, mas do qual algumas determinações ainda lhes escapavam. Novamente o processo, agora sobretudo intelectivo, revela hesitações e limitações em meio a contribuições fundamentais. Mostra também o alcance da cooperação entre os dois amigos, teóricos e militantes, ainda que destacando as nuances de cada um. Alguns podem se incomodar com a maneira quase íntima com que

Danielle reclama dos limites, insiste no que eles não concluíram, cutuca as diferenças entre as análises e os modos de exposição de um e de outro. Ela não minimiza os
problemas, mas tampouco supõe ou exige que Marx e Engels pairem num mundo filosófico ou acadêmico fora da história concreta. Ela demonstra a clareza de que a
contribuição deles foi fundamental, mas não poderiam antecipar todos os problemas, o que aliás nos eximiria de realizar a tarefa que é ineludível e necessariamente nossa.
O interesse fundamental, entretanto, reside menos nas diferenças entre Marx e Engels, não desprezíveis, do que em renovar o desafio que nos legaram para enfren-
tar o capitalismo na atualidade, em condições históricas diversas e adversas, em meio ao crescente cortejo de opressões intimamente conectadas com a brutal expansão da
valorização do valor, envolvendo a exploração de massas crescentes de trabalhadores. As lutas feministas e de gênero brasileiras ganham muito com este livro. Sua leitura é uma verdadeira maratona, mas longe de ser competitiva, é também espaço de acolhida e de momentos lúdicos, compartilhando aprendizados afetuosos, mas também urgentes em meio às lutas. Nos relembra que a produção teórica não nasce pronta, mas se faz no calor dos enfrentamentos, na seriedade teórica, na coerência.
Publique-se! Que este livro seja um ponto de encontro de lutas e de reflexões.

Sumário

Prefácio: Publique-se!, 9


Apresentação, 17


Parte 1: Capital e reprodução social, 21
1. A Teoria da Reprodução Social, 23
1.1 Capitalismo e opressão de gênero: em busca de uma
perspectiva unitária, 24
1.2. Conceituando a reprodução social e seu lugar no modo de
produção capitalista, 27
1.3. O trabalho doméstico não pago na economia capitalista, 33
1.4. Família, opressão de gênero e Teoria da Reprodução Social, 36
1.5. A reprodução social para além do trabalho doméstico não
pago, 42


2 - Gênero e Reprodução Social na obra O Capital, 49
2.1. Reflexões teóricas: Visibilizando a Reprodução Social em O
Capital, 50
2.2. Elementos empíricos sobre gênero e reprodução social em O
Capital, 72
2.3 Considerações finais sobre capital e reprodução social, 88

Parte 2: As mulheres na Associação Internacional dos
Trabalhadores: participações e debates, 93

3. Primeiros anos: A formação da AIT e a superação do
proudhonismo antifeminista, 95
3.1. Trabalhadores, uni-vos: a formação da Associação
Internacional de Trabalhadores, 95
3.2. A misoginia proudhoniana, 98
3.3. Os proudhonistas na AIT, 103
3.4. Os congressos da AIT e a derrota das concepções
proudhonistas, 105
3.5. A superação do proudhonismo antifeminista na AIT, 107

4. Mulheres e reprodução social nos documentos do Conselho Geral
da AIT (1864-1870), 115
4.1. Filhas, esposas, trabalhadoras e militantes: mulheres nos
primeiros anos da entidade, 116
4.2. Harriet Law e a ascensão da participação das mulheres na
AIT, 123
4.3. Reprodução Social na AIT, 134

5. Diversas e dispersas: as mulheres da AIT em nível local e os
últimos anos da entidade (1871-1876), 141
5.1. Feministas e revolucionárias: mulheres da AIT na Comuna de
Paris, 141
5.2. Gênero, raça e "classe": Victória Woodhull e a luta pelo voto
feminino nos EUA, 163
5.3. Entre disputas: Os anos finais da Associação Internacional
dos Trabalhadores, 172
5.4. Considerações finais sobre gênero, AIT, Marx e Engels, 180

Parte 3: Família e opressão de gênero nos escritos de Marx e Engels
após a AIT (1880-1884), 185


6. A Origem da Família, da Propriedade e do Estado, 187
6.1. A opressão feminina como fruto da História, 187
6.2. As transformações históricas da família e o surgimento da
opressão das mulheres, 188
6.3. Uma concepção engelsiana da opressão de gênero e da
libertação das mulheres, 195
6.4. Polêmicas e limites em A Origem da Família em diálogo com
a antropologia oitocentista, 207
6.5. Reprodução social em A Origem da Família, 223
6.6. O "testamento" de Marx e a origem d'A Origem, 233

7. Os cadernos etnológicos de Karl Marx, 237
7.1. Reflexões introdutórias sobre o caráter das notas, 240
7.2. As notas sobre Morgan, 241
7.3. As notas sobre Phear, 249
7.4. As notas sobre Maine, 252
7.5. As notas sobre Lubbock, 258
7.6. Uma concepção marxiana da opressão das mulheres, 260
7.7. Considerações finais sobre os estudos tardios de Marx e
Engels sobre a opressão das mulheres, 264

Conclusão, 269
Referências, 277